Email que recebi de um evangélico.

Olá, amigos. Recebi um email hoje que me deixou curiosa. Um rapaz brasileiro questionou meu texto "Por que deixei de crer em Deus e como estou voltando a crer nele", que gerou várias visitas ao meu blog. Apesar de ele se identificar com nome, cidade onde mora e igreja que frequenta, não vou divulgar essas informações. Veja apenas o email que recebi e minha resposta:

"Prezada Liesel,
Li seu texto com uma certa apreensão em meu coração. Sua forma de se referir ao Deus Todo-Poderoso é um tanto blasfema. Entendo que você passou por um momento delicado, mas nada disso nos dá a permissão de pedir que Deus saia de nossa vida. Ele é o dono da vida. Além do mais, as conclusões a que você tem chegado são erradas e irão te levar a um caminho distante do Todo Poderoso. Ele tem o controle sobre tudo o que acontece sobre nossas vidas, pois não cai uma folha de uma árvore sem a permissão dele, e foi Ele quem permitiu a morte do seu irmão. Se Deus permitiu que isso acontecesse é porque ele tem um propósito maior em sua vida. Se abra a esse propósito de Deus e ele te encherá de poder. Em Cristo somos muito mais que vencedores, e ele pode te fazer vencedora, se você seguir os caminhos dele. E muito cuidado com as pessoas e livros que você tem lido. Ao invés de beber de fontes duvidosas te recomendo ler a Bíblia, a Santa Palavra de nosso Deus. Nela você encontra tudo que precisa, pois ela é "lâmpada para nossos pés e luz  para nossos caminhos". 


Se ainda assim quiser ouvir pregações ungidas te recomendo o Pastor Silas Malafaia, ou o apóstolo René Terra Nova. Eles sim são homens de Deus, líderes de igrejas ricas e abençoadas, que poderão te abrir a mente para o Deus da Bíblia, o deus de Abraão, Isaque e Jacó. 


Oro para que deus te conduza ao caminho eterno. Paz do Senhor!"




Minha resposta:

"Querido,
Não sei quem são os pastores que você me indicou, mas se eles anunciam a mesma mensagem que você tentou me passar por email eu prefiro nem conhecê-los. Eu cresci ouvindo tudo isso que você disse e de nada me serviu. Sabe qual a sensação que eu tinha quando ia à igreja luterana? A sensação de que tudo aquilo era vazio, pois nada faz sentido. Que sentido faz para uma pessoa dizer que é "mais que vencedora" sendo que ela sabe que não é? Tudo isso me soa como um discurso pronto, repetido apenas para manter presas à religião pessoas que precisam de uma resposta rápida e fácil para problemas complicados. É mais fácil dizer que "deus sabe de tudo" do que tentar chegar ao motivo do problema. E uso como exemplo uma realidade brasileira: uma pessoa que morre no atendimento de um hospital por má vontade de alguém ou incompetência do governo é mais que vencedora em que? Muito pelo contrário, essa pessoa e a família podem se considerar derrotadas pelas circunstâncias. E onde entra o "Deus Todo Poderoso" nisso? Acreditar num Deus que controla cada detalhe da sua vida e tem o poder de mudar cada acontecimento, obedecer à regras um tanto confusas com a intenção de não causar a ira desse Deus, mas que te abandona na hora em que você mais precisa dele é motivo o suficiente para o ateísmo. E foi o que vinha acontecendo comigo.

As "fontes duvidosas" que você se referiu são na verdade uma forma diferente de ver a religião, minha última tentativa antes de chegar à conclusão de que realmente não existe Deus nem mundo espiritual. E gostei do que venho lendo e ouvindo, pois faz sentido com a vida. Penso que uma forma de analisar se a mensagem religiosa é correta ou não é ver se ela faz sentido com a vida. Ouvir mensagens que podem ser muito bonitas dentro da igreja, mas que na rua não fazem o menor sentido é perca de tempo, na minha opinião. Prefiro algo que faça sentido com a vida pessoal, que eu possa aplicar no meu trabalho, quando saio com meus amigos para tomar cappucino, quando estou no metrô ou quando preciso ir ao banco. E o que tenho aprendido faz sentido com a vida. 

Mas mesmo assim agradeço seu email. Sei que sua intenção foi boa, principalmente porque você me mandou o email com sua identificação, o que é algo diferente num mundo virtual onde as pessoas usam o anonimato para iniciar discussões, mas infelizmente não consigo mais acreditar nessa mensagem, apesar de respeitar sua crença. Obrigada por tentar ajudar.

Abraços, Liesel". 

Minha visita a Auschwitz

Ontem tive um dos dias mais marcantes da minha vida, um desses dias que a gente não esquece nunca: visitei o Museu de Auschwitz, na Polônia. A viagem foi um pouco longa, mas vale o esforço. Penso que todo alemão deveria visitar pelo menos uma vez na vida esse museu, uma espécie de peregrinação sagrada da história alemã. A história negra da Alemanha.

Auschwitz Birkenau, versão alemã para Oświęcim Brzezinka, é um conjunto de campos utilizados pelo governo do Fürer para "abrigar" presos durante o tempo de ocupação da Polônia. Auschwitz 1 servia como sede administrativa  do complexo. Auschwitz 2, ou Birkenau, era o maior dos campos, onde as pessoas consideram realmente como Auschwitz. Auschwitz 3, ou Monowitz, era o campo de trabalho, onde os presos eram usados na força braçal para a indústria nazista.

Logo na entrada a frase Arbeit Mach Frei (o trabalho liberta) mostra a contradição de um líder político que parecia não ter a menor ideia da aberração que estava escrita ali. O dia estava frio, nublado, e é impossível não sentir o ambiente pesado. Com um pouco de imaginação é possível ver pessoas sujas trabalhando ali, de tão impressionante é o lugar.

Agora o museu é um lugar limpo, muito bem cuidado e bonito. Sim, muito bonito, com jardins belíssimos e flores que parecem não fazer ideia do que aconteceu ali num passado não tão distante assim. Pequenas flores que nos ajudam a disfarçar a vergonha de ter permitido que um ligar daqueles viesse a existir.

Dentro do museu há várias histórias de pessoas que ali morreram. Alguns morreram de tanto trabalhar, outros morreram nas câmeras de gás que matavam cruelmente pessoas pelo simples fato de professarem a fé judia, na maioria dos casos.

Uma das histórias que me chamou a atenção foi a de Edith Stern, agora conhecida como Santa Tereza Benedita da Cruz. Judia, Edith se converteu ao catolicismo mesmo sem a aprovação da família, que a rejeitou por um bom tempo. Participou da Ordem Carmelita Descalça, de onde escrevia semanalmente para a mãe, mesmo sem receber nenhuma resposta. Foi presa pelo nazi e levada para Auschwitz, onde morreu na câmara de gás de Birkenau. 

Quando digo que todo alemão deveria visitar pelo menos uma vez o Museu de Auschwitz não é porque é algo bom para se lembrar. Pelo contrário, em toda a Alemanha impera o silêcia sobre esse assunto, uma página triste da história do país. Mas é uma história que não pode ser esquecida por um motivo simples: não podemos deixar nunca mais que algo semelhante ocorra. 



Livro: Warum Das Kind der Polenta Kocht


É uma pena que pouca coisa da literatura alemã contemporânea chegue ao Brasil. Apesar de os brasileiros terem escritores à altura de qualquer outro país, cultura nunca é demais e temos diversas boas dicas de livros feitos aqui e lidos em toda a Alemanha e países vizinhos. 

Um desses livros é Warum Das Kind der Polenta Kocht ('por que as crianças cozinham na polenta'), da escritora Aglaja Veteranyi, escritora que fez carreira na Alemanha. Apesar de ter nascida em Bucareste, depois de várias voltas ao mundo acompanhando os pais artistas cênicos veio parar na Suíça, onde aprendeu sozinha o alemão aos 15 anos de idade, quando ainda era desalfabetizada. 

Em Warum Das Kind der Polenta Kocht ela conta mais que histórias, faz uma autobiografia. A história é de uma menina filha de pais artistas cênicos que vê muita pobreza em torno de si, mas que se isola desse mundo de pobreza através de sua imaginação infantil bastante criativa. Noite após noite a irmã a conta a história romena de uma criança que era cozida na polenta, e a história, aliada à criatividade das meninas, as ajuda a se livrar do ambiente triste que as cerca. 

Comecei a ler o livro hoje, e se depender da empolgação que sinto, irei terminar logo. Me inspirei no hábito do amigo querido Wesley Talaveira de escrever sobre os livros que leio, por isso fiz esse texto para compartilhar com meus leitores brasileiros essa preciosidade da literatura contemporânea alemã.

O vídeo que segue tem trechos da peça de teatro inspirada nesse livro. Apesar do idioma alemão acho que é possível sentir o ambiente da história, já que a atriz Katalyn Bohn é sensacional: